25.10.06

Volto hoje ao convívio. Sem grande vontade diga-se. Entretanto mudei de psiquiatra duas vezes, e agora sou seguido pelo dr. Júlio Pêgo, no Hospital da Cruz Vermelha.

Tenho estado ligado à blosgosfera aqui, e aqui, e noutros lugares vastos e inextricáveis.

Como se vê a minha tentação filosófica continua. Ando a fazer de conta que procuro trabalho.

4.7.06

Agora estou sem nada. Absolutamente nada. Acabou-se a faculdade, acabou-se a diária, acabou-se tudo. Sou um não-ser. Naufragando nas ondas do acaso. Mas sinto-me indiferente, como se se tivesse destapado algo oculto, algo longínquo dentro de mim. Agora só podes crescer. Não há outra hipótese. Não podes fugir mais.

Longe. Penso sempre em longe. Longe de quê? De uma vida? De mim? O que é que poderá ser de tão terrível uma pessoa ser ela mesma e ser livre? Tenho medo de tudo: do meu pai, de mim mesmo, das outras pessoas, de tudo.

Estou permanentemente a pensar matar-me. É um facto.

Que posso fazer para que se resolvam os múltiplos problemas que trago dentro de mim? São infinitos, enormes, gigantescos. Não sou normal. Nunca o fui. Nunca o serei.

A vontade que tenho de me matar...

Perdi a confiança total da minha mãe. Roubei-lhe 60 euros ontem e agora entrei numa nova era. Sessenta euros para ir jogar no Casino. Não bato bem da cabeça. Isto está a cheirar mal.

5.6.06

Fui operado com sucesso e já estou em casa há quase duas semanas.

Não tenho nada o que dizer. A dizer a verdade: não sei por que é que tenho esta merda. É moda.

12.5.06

Sou esquizofrénico. Psicose esquizo-afectiva. Exactamente a mesma doença de que sofre a Adília Duarte. Só em Dezembro último tive consciência definitiva de tal, apesar de já o saber desde 2001. Em Dezembro foi quando li na Internet que a poetisa tinha a mesma doença que eu: afinal havia outras pessoas no mundo com o mesmo que eu. Até então dizia-o para mim que era esquizofrénico, mas era como dizer que tinha olhos azuis (eu tenho olhos castanhos): dizia-se só por se dizer, não tinha fundamento e não o assumia minimamente. Não fazia parte de mim. Agora vivo obcecado com a ideia. Não me permite fazer mais nada. Mas já sei que o sou.

Sou virgem também. Tenho 36 anos de idade. O sexo sempre foi um grande problema para mim. Nunca assumi a sexualidade. Era assexuado. Fui-o até 1999, quando iniciei a grande viagem ao interior de mim mesmo. É claro que hoje sei por que sou virgem, ou tenho vindo a ser virgem todos estes anos: a doença de que padeço fez-me assim. A Adília Lopes tembém é virgem e já tem 44 ou 45 anos. Mas há a maneira de ser, e eu sou profundamente tímido, introvertido, acabrunhado, ensimesmado, e outros adjectivos da mesma família, e a doença. E eu não sei quando começa uma e acaba outra. Ou vice-versa. Nunca beijei uma rapariga na boca. Nem lábios, quanto mais língua. Nunca toquei numa rapariga por motivos lacivos. Nada sei de sexualidade. Eu sou um monstro.

Sou um perfeito anormal, que na selva da realidade é simplesmente trociado. É o que me acontece sempre. Sou de uma extrema sensibilidade, sensibilidade de artista, que sente e vê a realidade de modos únicos. Ser-se esquizofrénico, muitas vezes, significa ter-se muita inteligência, que é o que me ocorre. Mas a minha inteligência é estranha. Por vezes percebo as coisas logo à primeira, instantanemante, e derivo logo para mais além. Vejo logo outras possibilidades ou conclusões que saem da original. Isto sem esforço nenhum. Nem tenho que pensar: sai naturalmente. Outras vezes, levo imenso tempo a perceber as coisas (mas chego sempre lá), e há qualquer coisa que não me permite aceder às coisas. Como um muro à minha frente. É verdade. Só que por detrás do muro está a coisa e eu chego lá, ou derrubando o muro, ou contornando-o. Sei que todas as minhas possibilidades mentais foram abafadas, sufocadas, enclausuradas, encaixotadas, enjauladas, pelo ambiente em que vivi toda a vida. Hoje ainda vivo com os meus pais. Os meus pais tiveram o condão de conseguir destruir algo que me era natural. Por isso toda a luta que prossigo para destapar o ocultado por décadas. É da ordem do inominável o que tenho que fazer. É muita coisa junta: a doença (provocada por eles), eles, eu, a realidade, a vida, tudo. Não escapa nada o que me pode agredir. Os esquizofrénicos normalmente não conseguem lidar com a realidade. As pessoas dizem que sim: os médicos, os próprios doentes, as famílias, mas é uma foda, isso é o que é.

Viver é-me insuportável. Já pensei inúmeras vezes no suicídio. O suicídio é a principal causa de mortalidade entre os esquizofrénicos. Ainda não fiz nada na minha vida pelo que dar um rim ao meu irmão revela-se da maior importância: será a primeira coisa que fazerei na vida. (Estou no 3º ano de Economia da Universidade Lusíada). O suicídio tem uma força em si monstruosa: permite-nos fazer coisas inimagináveis, como ir 4 dias seguidos ao Casino, só pelo prazer de perder. E por agora é tudo.
Sobre o melhoramento de um indivíduo. Há várias formas de nos melhorarmos. A alimentação é uma delas. Eu só como uma sopa ao jantar, com uma ou várias peças de fruta. Almoço normalmente. Mas tento comer o mais frugalmente possível. É claro que sofro do pecado da gula quanto a bolos, e de vez em quando lá cedo a um. Mas eu já cheguei a comer duas costeletas de porco por refeição ou dois hamburgueres por refeição, e era então um desregramento total. Cheguei a pesar 98,7 kg, mas isto também devido aos comprimidos para a esquizofrenia. Já lá vamos. Era imensamente gordo. Sentia-me pesado, doiam-me os joelhos ao andar, não me sentia nada bem. Então fiz uma dieta da Herbalife e cheguei a pesar 69 kg. Agora peso 76 kg.

A melhor forma de nos melhorarmos é pelo conhecimento. Pela leitura. Há que aceder e ler milhares de livros (tudo está nos livros, cantava o programa de Fernando Sanchez-Dragó, na TVE2). Ler tudo. O bom e o mau. O que nos é próprio e o que não nos é. Quanto mais lermos, tanto mais fundo chegamos em nós. Tanto mais sabêmos de nós. É isso o que mais importa. A leitura é um caminho que se multifurca em mil outros caminhos. É uma evidência. Conhecimento não é sabedoria. Esta vem da vida. A leitura está fora da vida.

Pensar por nós próprios é a melhor maneira de nos melhorarmos. Seguir o nosso instinto (outros dizem «o nosso sonho»...). Não fazer o que surga mais adequado à imagem, sempre distrocida, que os outros têm de nós. Seguir a emoção em vez da razão. Como se sabe, hoje, pelas inventigações de António Damásio, as duas andam juntas e são de origem puramente biológica. Seguir a intuição pelos atalhos mais esconsos, pois são esses, por piores que possam paracer, os que levam a uma ideia de felicidade. Dar largas à imaginação, ao puro deixar funcionar dos sentidos. Quanto mais lemos mais fora da razão estamos. Como é lógico. Há que deixar escorrer tudo: o que nos parece horrível, o intragável, o impossível, até o inominável, para que possamos estar mais de acordo connosco mesmos e com a nossa pureza. Sermos nós próprios advém de profunda reflexão e profunda consciência. É muito doloroso, mas é o único caminho para a aprendizagem. Entregarmo-nos nas mãos da Dor e da Morte são as melhores maneiras de nos escolhermos a nós próprios, ou seja, de nos descobrirmos a nós próprios. Não há factores externos aqui: tudo é puramente nosso. Só assim consiguiremos admitir o que somos.

Não interessa se dormimos muito ou pouco: se descançarmos sem demónios na cabeça dormimos o suficiente. O corpo regenera-se com uma capacidade espantosa. Tem uma energia que não se esgota, mesmo quando pensamos que estamos nas últimas. O organismo humano guarda em si a sabedoria de milhares e milhares de anos de evolução. Varia de pessoa para pessoa, mas a capacidade de resposta à adversidade é realmente incrível. Aqui quase que não temos que fazer nada: é só deixar caminhar o corpo por si só.

Muito mais haveria a dizer, mas não me apetece. Tchau.
Vou ser operado na próxima quarta-feira. Vou dar um rim ao meu irmão. Não que me dê muito bem com ele, mas é o mínimo que posso fazer por ele, ele que tanto tem sofrido.

Ganhei 380,76 euros na terça-feira passada no Casino de Lisboa e fui de imediato comprar livros à FNAC do Chiado. Comprei 7 livros de Agostinho da Silva e outros 7 de Eduardo Lourenço. E ainda um de um grande filosófo espanhol do século XVII, Baltasar Gracián y Morales. Foram 25 livros no total, pelo que a maioria foi de Filosofia. É significativo. Comprei os números 9 e 11 da colecção «Breve Curso de Literatura Brasileira» da Cotovia. Dois livros da Lygia Fagundes Telles, um de Paul Auter (o último), «Os Poemas», de Kavafis, o último de Dino Buzzati na Cavalo de Ferro, «Terceiro Livro de Crónicas», de António Lobo Antunes, «Satyricon», de Petrónio, não havia «A Arte de Amar», de Ovídio, «A Vítima», de Saul Bellow, e mais dois que não me lembro. Foi um bom incentivo à minha biblioteca.

3.5.06

Eu roubo livros. O que no início era uma aventura tornou-se um vício. Hoje sou profissional de roubar livros. Entra-se na livraria, começa-se a olhar os livros expostos, controlam-se as pessoas presentes (funcionários, estes especialmente, e clientes), escolhe-se um livro ou vários livros e sai-se da loja. É necessário passar o mais despercebido possível. Controlar os funcionários, mas pelo canto do olho. Mas eu estou de tal forma associado com o Mal que olho-os bem nos olhos e não me vêem. Sou invisível. Há duas livrarias (que são só uma) em Lisboa que são uma autêntica maravilha para o furto de livros. Entra-se, ninguém me vê, pego no(s) livro(s) e saio. Tudo numa questão de segundos e profissionalmente. Um espectáculo.

O furto de livros tornou-se-me uma doença. Eu gosto muito de livros, mais do que ler, apesar de ler bastante, todos os dias, e mais de um livro. Sempre fui viciado em colecções. Agora meti-me numa sem fim: a de ter todos os livros do mundo. Há épocas em que roubo livros todos os dias, e já cheguei a roubar, num dia, em três sítios diferentes. Há que se ser profissional... Já roubei uma vez numa loja com aqueles sistemas electrónicos à entrada que apitam quando algo não desmagnetizado passa por eles. Foi no Fórum de Almada, na Livraria Bertrand, em que consegui roubar um livro que pesa uns bons quilos: o «Dom Quixote», de Miguel de Cervantes, da editora Dom Quixote (a edição do ano passado que saiu em comemoração dos 500 anos da edição da 1ª parte da imensa obra do manchebo), com tradução de Miguel Serras Pereira. Andei às voltas pelo centro comercial. Fui duas vezes à casa de banho, até que me decidi arriscar. Entrei na loja, o livro estava logo na bancada da entrada, peguei nele e disparei. Sai e não tocou alarme algum. Eu devo ter posto os braços de tal forma que anularam o toque de alarme. É que trazia o livro entre as duas mãos (já disse que é enorme o bloco), como se trouxesse um bebé nas mãos. Assim com as mãos estendidas, mas com o livro entre os braços. Os braços anularam o efeito electrónico. Ou então, por ser precisamente electrónico, o alarme não estava a funcionar na altura. Deve ser mais esta a causa. A alarme falhou. E eu passei e fui apanhar o autocarro. Foi o meu maior furto. O magnífico. Um livro que custava 10 contos.

Nas Feiras do Livro de Lisboa roubo dezenas e dezenas de livros de cada vez que lá vou. Aí é escolher o que me agrada na bancada em causa (estão todas em causa) , dar uma olhadela nos feirantes e pegar no livro e metê-lo no saco. E é ir enchendo o saco... Todos os anos roubo 60-70 livros. É fácil. Há dois anos fiz uma razia no «stand» da Relógio d'Água e foi um fartote. Roubei tudo. Durante dias seguidos, o que ainda é mais amazing. Levo sempre três sacos da Caminho, daqueles azuis, e são extremamente pesados quando cheios. Quando está concluída a função, e é época sempre de calor, é suar que não é brincadeira. Ossos do ofício. Dá-me imenso prazer roubar os livros, é verdade, e chegar a casa e ver de o que o lote se compõe. É certo que o meu crítério é elevado e são livros que já conheço os que eu roubo, mas há sempre algumas «novidades». Ler os prefácios e introduções: uma maravilha.

Isto de roubar livros é da ordem da anormalidadde, apesar de sempre terem existido grandes ladrões de livros. De bibliotecas (que eram onde eles se encontavam, claro), sobretudo. Não é normal praticar o furto só para consumo próprio, sem que haja o fito do lucro. Eu não roubo para os vender depois. São para a minha biblioteca pessoal. As pessoas ficam espantadíssimas de me verem a roubar. É claro que já fui apanhado, e até levado à entrada de uma esquadra de polícia, da PSP. Quando sou apanhado, devolvo de imediato os livros e fico cheio de mal-estar no meu corpo. Já levei no tronco pesados estalos de um energúmeno que me apanhou e tratou de me tratar como se de um reles ladraozeco se tratasse. O filha-da-puta tem agora a loja fechada. Faliu. Quem tem a alma associada com o Diabo só pode esperar tal de tão garboso aliado. Roubo para mim. Para meu desfrute, por que gosto muito de ler, e não tenho dinheiro para comprar todos os livros que cobiço. É muito simples. Mais complicado é protagonizar os actos de furto, claro. Por isso aconselho a quem queira entrar no universo do roubo de livros que o não faça, pois é perigoso e tem pouquísima recompensa, a não ser que seja tão louco por livros quanto eu.

Sempre roubei. Livros de banda-desenhada. Cassetes de audio. Pilhas Duracell. Essencialmente, livros de BD. Comprava um, e levava outros dois. Compensava. Aí metia-os entre os cadernos escolares. É preciso tem grande lata e sangue-fio para se roubar como se respira o ar. É assim comigo. É necessário controlar quem controla a loja. Essencial. Agora como tudo é magnetizado estamos mais fodidos. Numa livraria, a rapariga que me atendia virou costas e eu metia debaixo do sovaco esquerdo o livro «Gulag», do ano passado. Ou seja, um grosso volume. Era como se trouxesse comigo tal objecto. Ela ainda olhou desconfiada para o livro, mas não passou disso. É necessário grande desplante, que é o que eu mais tenho. E pouca consideração por nós próprios, claro, pois só rouba quem tem a auto-estima muito embaixo. Sou doente. Só não digo agora de quê.

Tenho centenas de livros roubados em casa. E assiná-los, com um «palmado». Em todos os livros faço uma espécie de ficha técnica: diga a data da compra ou do roubo, o valor, se é palmado, quanto seria se não fosse roubado, a livraria ou feira do livro, e a rua ou cidade. Assim sei sempre quando entrou para a minha biblioteca. Ter uma biblioteca pejada de livros roubados nãp me pesa minimamente na consciência: quando se ama algo não se olha a meios para atinguir os fins. É como o dinheiro: não tem cor. Nõo entram aqui valores, nem éticas (e o ladrão tem uma ética muito sua) nem questóes de conscìência: há que obter certo livro para poder ter a possiblidade de aceder a ele quando me aprover. É só isso. Deseja-se ler o livro, não interessa como se conseguiu o livro. Eu compro imensos livros nos alfarrabistas: os livros vêm cheios de anotações, e amarelos, e mal-cheirosos, e isso não me aflinge minimamente. Eu sei que tenho o livro e que há a possibilidade de a qualquer momento pegar nele e começar a lê-lo. É só isso. Eu antes de ser um ladrão de livros sou um leitor. Ávido. É essa a minha hierarquia ética.

Confesso que roubo muitos livros por que me aconteceram coisas na minha vida que me revelaram a verdadeira face do humano, e esta é medonha. Por isso eu que é que se fodam! Roubo por saber a natureza humana. De que é feita a essencia do ser humano, de como é hedionda, abominável, desprezível por natureza, mesquinha, pequeníssima. Roubo por que senti na pele a repelência humana. De como somos ostracizados por sermos diferentes. Proscritos, transformados em animais acossados. A raiva de animais acossados é a que alimenta. Isto foi no início, agora é mera profissionalização.

Sobre isto há ainda algo a dizer (há tudo a dizer). É que o Mal faz-nos ser invisíveis. É como eu me sinto quando entro numa loja, pego no livro e saio, e a loja está vazia de clientes, só com os funcionários. É como se não existisse. O Mal faz-nos sermos intangíveis. Estamos cheios de Mal quando entramos numa livraria e nada nos pode atinguir. Já me senti assim inúmeras vezes. É como se fossemos meros agentes de forças desconhecidas, não-humanas, puros de malificiência, intocáveis. A união, a osmose, com o Mal é um valor seguro para seres tão desesperados como eu. Há momentos de puro êxtase quando saimos da loja com um livro caríssimo e ninguém no mundo suspeita de tal. É a perfeição.

30.4.06


Scarlett Johansson é um autêntica maravilha da natureza. As mamas são naturais. Isso é certo. Actriz de um enorme talento, é já uma autêntica diva em Hollywood. Tenho visto todos os filmes dela, menos um «?????», ou o-que-é-que-era. De acção. De ficção-científica. Eu sou muito inocente e acho-a fantástica. É um prazer saber que existe gente tão generosa no mundo. Obrigado!

28.4.06

Leituras

Estou a ler A Literatua e O Mal, de Georges Bataille, edicão Vega (uma pequeníssima editora), da colecção Passagens, da responsabilidade de Bragança de Miranda. É uma obra acerca de autores geniais que o são por que conseguiram aceder ao mais profundo de si mesmos, alcançando, para nós, abismos que permitem chegar onde só ao de leve o humano consegue chegar. Seres que tocam ao de leve nas vestes dos deuses. Ainda só li sobre Emily Bronte e Charles Baudelaire, mas os outros são da mesma igualha. Mestres da matéria de que se faz o humano, regurgitam as próprias entranhas num manifestação de pura bondade. É certo que só seres puros, imaculados e inocentes, são capazes de exprimir a crueldade, a violência e o medonho. Isso é um dado adquirido. São eles que nos abrem e revelam o que o ser humano transporta e traz consigo há milénios de anos. Que nos fazem aceder aos monstros que nos habitam e que condicionam e nos fazem ver o mundo com deslumbramento ou com os olhos sempre cheios de veneno. Talvez esta última hipótese seja a mais segura. A que melhor nos melhor pode proteger contra a realidade quotidiana.
O linchamento é uma prática comum. Acontece em todas as civilizações. Vamos linchar Eduardo Pitta!

Eduardo Pitta é uma sumidade. Entre aspas. Há agora um excelente Manifesto Anti-Pitta, de Leopoldino Silva, que trata da pele do dito cujo. Pitta é o maior paneleiro de Portugal. Orgulha-se, claro, disso. Sabe de tudo, sobre tudo. É de umas peneiras que raiam o escandaloso (ai o Jorge!...). Ultrapassa o pedantismo. Entra no escatológico. Pensa que sabe mas não sabe nada. Isso seria o normal a esperar de um ser humano, mas Eduardo Pitta, com um buraco do tamanho do mundo, vê-se como um erudito (ou seja, segundo Leopoldino, sabe de coisas gays), como um douto. É um dodó. Faz-me um bobó. Eduardo Pitta julga-se um clássico. Pratica coisas clássicas. Há muito que anda no mundo das letras. Afogou-se. Faz livrinhos como se houvesse o menor interesse em que tal existisse. Uma coisa não tem de existir só por que o quer. Houve muitos seres humanos que quiseram existir e nunca o conseguiram. Eu sei de pessoa que se matou só por que queria existir. «Eu sou homossexual, logo existo», reflecte Pitta. Hoje é assim que se pensa nesta sociedade de total futilidade, de valorização do vazio. Faz da sua condição de paneleiro um valor em si mesmo. E é adorado, claro, ela imensa comunidade gay lisboeta.

Só se fala daquilo que se gosta. E eu gosto de Eduardo Pitta. Acho-o hilariante. Ele em Veneza com o Jorge... Nas gôngolas... Já se viu maior beleza de romantismo. É o zénite do ideal gay. Há toda uma mitologia associada ao imaginário homossexual que passa pela cidade de Veneza. Pela decadência, pelo elemento água de dissolução, pela «Morte em Veneza», de Thomas Mann (que Vladimir Nabokov achava risível), pela «Morte em Veneza», de Lucchino Visconti. A viscosidade da cidade pode servir de metáfora ao sémen que escorre pelas pernas abaixo saído do buraco do cu. Nunca fui a Veneza, mas sei. Veneza, cidade de morte, cidade eterna. Acho que vou gostar de Veneza quando lá for.

Depois Eduardo Pitta pensa-se um intelectual (logo é gay). Esta gente das letras, que vive delas, junta-se em capelinhas, e depois são o centro do mundo. É assim que se vêem. Sempre foi assim. Sempre assim será. Viver fechado numa redoma enquista-nos, acabrunha-nos, cega-nos. E Eduardo Pitta é um cego. Mas é um cego que pode ver mas não quer ver: ele simplemente usa um cortina de ferro à frente dos seus olhos que o esmaga. Palas de ferro. Quem vive encerrado nunca pode ser um homem livre. Pitta, que não pita que tem pito, ou seja, a origem do mundo, é um homem convencido. «Mas, não, não sou nada», diz Pitta. O dois tês vêm da sua ascendência brasileira, claro. É auto-convencido que é importante. Ele é uma sumidade da Net. Toda a gente o sabe. Toda a gente reconhece a sua douta sabedoria, que serve de iluminação para todos. Ainda bem que existe Eduardo Pitta!

Sabe de versos. De muitos versos. E de toda a taxonomia relacionada com a ciência da Poesia. Sabe as datas de todas as edições, sabe onde nasceram e morreram todos os poetas (de mim não sabe nada...óóóóóóóóóóó...), sabe o número de síladas que têm Os Lusíadas, sabe a cor dos olhos de todos os poetas, sabe a tamanho do caralho erecto de todos os poetas masculinos e a profundidade exacta da cona de todos os poetas femininos (Adília Lopes, que tanta aprecia, é uma poetisa), lê (não lê, diz-nos Leopoldino Silva) todos os livros de poesia, portugueses e estrangueiros, em todas as línguas, sabe os metros quadrados de todas as salas de todas as casas de todos os poetas, sabe a que horas cagam e mijam, e em que circunstâncias, todos os poetas, ele é um doutor da poesia. Aleluia por Eduardo Pitta!

Hoje é dia de Eduardo Pitta comunicar-nos algo. Que nos abramos a ele: à sua sapiência, à sua objectividade sem sub-textos, à clarividência dos seus textos, a algo que nos ultrapassa e que se oculta na realidade. Só ele para nos a fazer ver. Saudemos Eduardo Pitta, por ele ser quem é e por todos sabermos que ele existe, o que dá uma garantia de perpetuabilidade do tão santo provincianismo português que tanto nos orgulha. Orgulho gay? Não, simplesmente o orgulho de vermos portugueses esclarecidos. Obrigado Eduardo Pitta! Bem-aja!